NÃO REELEJAM NINGUÉM. POLÍTICA NÃO É CARREIRA. RENOVAÇÃO TOTAL EM 2014.
NÃO REELEJAM NINGUÉM. POLÍTICA
NÃO É CARREIRA. RENOVAÇÃO TOTAL EM 2014.
Havia prometido a mim mesmo que
não iria mais me incomodar com os problemas políticos deste País, que iria
ficar longe e deixar que a vida seguisse seu curso normal, mais uma noticia
desta tem que ser compartilhada. É muita sacanagem estão acabando com tudo que
a democracia deste País prega.
Em vez de
sepultar Donadon, Câmara se mata
— Na
hora de vir pra cá, eu fui tomar banho. E faltou água na torneira. Lá não tem
chuveiro. É uma torneira. Água fria. E justamente hoje faltou água.
Plenário da Câmara, noite do dia 28 de agosto de 2013. O clima
era de velório. Na tribuna, Natan Donadon, um cadáver político, pronunciava
suas penúltimas palavras.
— Eu tava todo ensaboado. E acabou a água do presídio. Eu tive
que recorrer a um preso, do lado da minha cela. Ele tinha umas garrafinhas de
água. Pedi a ele. E acabei de tomar banho com essas poucas garrafinhas que ele
me emprestou.
Em noite constrangedoramente deplorável, o plenário da Câmara
perdeu a tradicional aparência de feira livre. Hipnotizados, os presentes
dedicavam 100% de sua atenção a Donadon. Pela primeira vez na história do
Legislativo, um presidiário ocupava a tribuna.
De todos os persistentes terrores brasileiros, o pior é o terror
do sistema prisional. O flagelo é a síntese do que o pedaço bem nascido do
Brasil pensa dos sem-berço. As cadeias são infernais porque elas só são
infernais para bandidos pretos e pobres. Não é lugar para brasileiros acima de
um certo nível de renda e de poder.
De repetente, o STF condenou Donadon a mais de 13 anos de cana
dura. E ele foi transferido do mundo das facilidades e dos privilégios para a
Penitenciária da Papuda, em Brasília. “Os companheiros de prisão chamam de
‘P-Zero’, prisão zero, porque não tem nada”, disse, ao relatar seus primeiros dois
meses de inferno.
— Vim algemado de lá pra cá. Nunca tinha entrado num camburão na
minha vida. Nunca pensei que isso fosse acontecer. Vim algemado pelas mãos,
atrás [didático, o orador leva as mãos às costas, juntando os punhos]. Eu tenho
uma certa fobia. Pedi aos agentes pra me trazer na frente. Mas eles disseram
que não poderia. Deus me acompanhou. Me deu força, me deu resignação.
O plenário estava reunido para parafusar a tampa do caixão que o
Supremo fechara, decretando a cassação do mandato do preso. E Donadon, munido
de autorização judicial, revirava no caixão. Nas entrelinhas do seu discurso, o
condenado passava aos seus pares, por assim dizer, um recado. Era como se
dissesse: “Eu sou vocês amanhã.” Soou dramático.
— Esses 60 dias que eu estou preso lá, tenho sofrido muito.
Tenho sofrido muuiiiito. É desumano o que um prisioneiro passa. A minha família
tem sofrido muito. Por favor, me absolvam. Essa Casa é independente!
Sentenciado em última instância, sem possibilidade de recorrer,
Donadon revelou-se um presidiário de mostruário. Como todo detento que se
preza, declarou-se “inocente”. Terminado o discurso, abriu-se o painel de
votação. E o plenário começou a esvaziar.
Muitos deputados, cumprida a obrigação de votar, foram embora.
Outros tantos bateram em retirada sem votar. Dos 513 deputados, 470 registraram
presença ao longo do dia. Desse total, apenas 405 levaram o voto ao plenário.
Como que farejando o cheiro de queimado, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN),
presidente da Câmara, esticou a sessão a mais não poder. Queria que todos
votassem.
Iniciada às 19h, a sessão foi encerrada às 23h04. Para que o
mandato do condenado Donadon fosse passado na lâmina, eram necessários pelo
menos 257 votos. “A Câmara não vai cometer hara-kiri político”, disse um otimista
Chico Alencar (PSOL-RJ), antes que o resultado fosse estampado no painel
eletrônico: “sim”, 233; “não”, 131. “Abstenção”, 41. A Câmara, que sempre
teve um comportamento de alto risco, cometeu suicídio. Tornou-se uma
instituição-zumbi. Numa tentativa de reduzir os danos, Henrique Alves anunciou
que Donadon não terá de volta o salário e demais benefícios. Será convocado o
suplente.
Sacramentado o vexame, o ainda deputado federal Natan Donadon
levantou as mãos para o alto. Atrás da última fileira de poltronas, festejou a
morte do plenário como uma vitória do corporativismo. Depois, foi reconduzido
ao camburão. Algemado, voltou para o xilindró. Antes, foi ao microfone de
apartes para cumprir um compromisso que assumira com seus companheiros de
cárcere.
— Eles falaram pra mim assim: ‘nao esqueça de falar da nossa
alimentação. É muito ruim a alimentação do presídio. Não é de boa qualidade.
Tenho a síndrome do intestine irritado. Associado ao estresse, tenho passado
muito dificuldade lá. Tá dado o recado. Eles pediram pra eu falar. É preciso
melhorar a comida dos presidiários da Papuda.
O Brasil dispõe de mais uma jabuticaba: um deputado federal
corrupto e presidiário. É coisa única no mundo. “Graças a Deus, a Câmara está
fazendo justiça”, disse a anomalia, a caminho do camburão.
Comentários
Postar um comentário