Educação familiar e os caminhos para o crime
Uma discussão acalorada para todos ligados a educação neste País.
Publicado por Wagner Francesco
Somos seres de conflitos e toda a nossa maturidade psicológica caminha, segundo Freud, do ato para o pensamento. Diz ele em Totem e Tabu, que o homem caminha, em sua evolução psíquica, do ato para a reflexão, para a capacidade de representar psiquicamente a realidade.
Esta lógica segue dois outros pensamentos: um bíblico, onde se diz que “no princípio era o verbo” e um da literatura, no Fausto do Goethe, onde “no princípio era a ação”. Nas palavras de Alvino Augusto de Sá, em seu livro “Criminologia Clínica e Psicologia Criminal”, no princípio o homem era somente ato. Com o tempo, começou a pensar sobre seus atos. E diz mais:
Este “princípio” não deve ser interpretado necessariamente como princípio da humanidade. Refere-se, também, ao princípio do curso vital de cada indivíduo, quando ocorre um dos mais profundos conflitos do homem, ou, na visão da psicanálise, o seu conflito fundamental, que é o que se estabelece entre o filho e seus pais, dentro de uma relação profundamente ambivalente, permeada por sentimentos e impulsos contraditórios de amor e ódio.
Há quem não leve a sério isto, e, por agir assim, tende a cair nos mais tortuosos caminhos para debater de forma profunda a questão da criminalidade; mas a rivalidade entre os pais e os filhos é, embora um conflito fundamental para a construção do ser, muito sofrida porque entra em choque duas figuras que se amam. Ainda segundo o autor supramencionado,
A rivalidade entre pais e filhos é uma rivalidade necessária, porque é o espinhoso caminho pelo qual o indivíduo deve conquistar seus direitos, os mesmos que os pais têm, conquistar sua autonomia e identidade.
Pois bem, infelizmente não temos espaço para discutir o complexo de Édipo, mas ele é fundamental para a compreensão de atos criminosos. O importante é que se diga que o conflito edípico é encontrado no nível das relações de rivalidade entre pai e filho e são oriundas do poder e domínio dos pais sobre os filhos e diante disto os filhos se insurgem contra os pais no intuito de conquistar a sua autonomia.
Vejam então, pois alcançamos o ápice. Nas palavras do Alvino,
Os conflitos fixados nas primitivas experiências mal resolvidas da infância resultam padrões de resposta para conflitos futuros, no contexto social amplo. Nesses casos, o crime será expressão de conflitos predominantemente intraindividuais.
Diante deste cenário, o indivíduo cujo complexo de édipo não foi resolvido tende a ser desajustado e às vezes se desvia de seus objetivos legítimos, quais sejam, o direito à identidade, à vida e à autonomia. Em outras palavras: permanecerá a descarga de tensões geradas por conflitos arcaicos e não resolvidos.
Isto é importante? É evidente que sim. Basta lembrar que Freud falou sobre “Os Criminosos por Sentimento de Culpa". O que é isto? Em breve resumo: para Freud, o crime pode ser um alívio para algumas pessoas que sentem a culpa antes do crime e, assim, parecem precisar cometer crimes para se sentirem aliviadas. De onde vem este “sentimento de Culpa”? Para Freud
O constante resultado do labor psicanalítico foi de que esse obscuro sentimento de culpa vem do complexo de Édipo, é uma reação aos dois grandes intentos criminosos, matar o pai e ter relações sexuais com a mãe. Comparados a esses dois, os crimes perpetrados para fixar o sentimento de culpa constituíam, certamente, um alívio para os atormentados.
Não é um assunto simples e nem pode ser completamente exposto nestas poucas linhas, mas meu propósito é fazer com que mais operadores do Direito Penal, mais criminalistas, atentem para o que diz a psicanálise. E a sociedade, também, não pode se deixar levar pelo sentido comum de crime e criminoso. Defendo e continuarei e defender: somos, todos nós, potenciais criminosos (indico, para se aprofundar nesta questão, o filme The Purge). O que nos impede de cometer crimes é o aparelho repressivo do Estado e (talvez) a educação familiar que recebemos.
Sobre educação familiar, já que falamos do complexo de Édipo, vale a pena lembrar o que disse o Alvino Augusto de Sá
“Os cuidados paternos para com a saúde do lar devem ser redobrados, principalmente se se pensar que as violências praticadas no lar tendem a servir de paradigmas para outras violências a serem praticadas no meio social”.
Ou, como diz o velho ditado:" Educação se aprende em casa ". Ou:" eduquemos as crianças, para que não seja necessário punir os adultos. "
E se para Freud"somos seres de conflitos e toda a nossa maturidade psicológica caminha do ato para o pensamento", é evidente que a família é a primeira base para transformar seres de ação em seres que medem as suas consequências.
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